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Feijão, comida rápida e obesidade


*Carlos Augusto Monteiro

Resultados recentes do Vigitel, sistema de vigilância de doenças crônicas desenvolvido pelo Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP) e implantado pelo Ministério da Saúde nas capitais dos 26 Estados e no Distrito Federal, tiveram repercussão na mídia.
Assim, ensejaram comentários sobre a deterioração da alimentação e a iminência entre nós de uma epidemia de obesidade como a que assola os EUA. De fato, o aumento da obesidade no Brasil vem sendo documentado desde 1989 por inquéritos do IBGE.
O Vigitel confirma essa tendência: 42,7% de pessoas com excesso de peso em 2006, 42,9% em 2007, 44,2% em 2008 e, dados ainda inéditos, 46,6% em 2009. Portanto, aumento de mais de um ponto percentual ao ano.
Para se chegar à cifra de 70%, encontrada nos EUA, precisamos de apenas mais 20 anos!
Por outro lado, são poucos os que consomem quantidades adequadas de frutas e hortaliças (14,1% dos jovens entre 18 e 24 anos) e muitos os que tomam refrigerantes todos os dias (42,1% dos mesmos jovens).
Mas o indicador do Vigitel que melhor traduz a deterioração da alimentação do brasileiro é a proporção dos que comem feijão regularmente: redução de mais de dois pontos percentuais ao ano entre 2006 e 2009.
Além de fonte de proteína, fibra e micronutrientes, o feijão é marcador da prática de comer com garfo e faca, na companhia de outras pessoas e sem dividir tempo com outra atividade, como dirigir ou ver TV.
Na ausência de campanhas publicitárias milionárias, como as produzidas pela indústria de alimentos prontos e redes de "comida rápida", feijão e alimentos básicos em geral são consumidos quando as pessoas... sentem fome!
Comer por sentir fome e beber água (isenta de calorias) quando se tem sede são condições essenciais para o balanço entre calorias ingeridas e calorias utilizadas.
A capacidade inata de equilibrar calorias e manter estável o peso corporal é perdida quando se come e se bebe para fazer parte do universo de pessoas bonitas e famosas mostradas na propaganda da indústria de alimentos e bebidas ou para aplacar o desejo por açúcar, gordura e sal, desencadeado pelo alto teor daquelas substâncias nos alimentos industrializados.
Ou, ainda, no caso de crianças e adolescentes, quando o que se quer são os brindes vinculados à compra dos produtos.
A experiência internacional mostra que informar sobre prejuízos à saúde decorrentes do consumo excessivo de bebidas e alimentos processados e "comida rápida" é importante, mas não suficiente.
Ações regulatórias que limitem o abusivo marketing desses produtos são essenciais, assim como políticas fiscais que tornem economicamente menos acessíveis os "alimentos prontos" e mais acessíveis os alimentos frescos ou minimamente processados que são parte da cultura alimentar do nosso país.
(*) Carlos Augusto Monteiro, médico sanitarista, é professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, onde coordena o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, e membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 13/06/2010.

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