Pular para o conteúdo principal

Informe Técnico nº 24, de 11 de maio de 2007

Investigação do surto decorrente da ingestão de tapioca no município de Sobral-CE

1. Tapioca é o nome da iguaria tipicamente brasileira, de origem indígena, feita com o amido ou fécula extraído da mandioca, também conhecida como polvilho, goma ou beiju. Em termos nutricionais, 100 g da tapioca ou goma de tapioca contém 347 calorias; 05,g de proteína; 0,4 g de fibras; 0,2 g de lipídios; 4 mg de sódio, 20 mg de fósforo, 20 mg de potássio, 11 mg de cálcio e 1 mg de ferro, sendo considerada um alimento regional saudável.

2. O consumo desse produto é maior nas regiões norte e nordeste, sendo o Ceará o maior mercado consumidor de tapioca. Depois dos cearenses, o Estado do Pará e do Pernambuco, são os maiores consumidores do produto. Entretanto, como a tapioca vem apresentando diversos tipos de recheios, podendo ser servida recheada com manteiga, queijo e ou coco ralado, sendo que as mais exóticas podem conter banana, chocolate, carne de sol e ou leite condensado, é preciso ter muito cuidado na sua preparação, acondicionamento, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização, de modo que as operações de manipulação desse alimento sejam realizadas em condições higiênico-sanitárias satisfatórias.

3. A respeito desse alimento, houve inicialmente, no dia 11 de fevereiro de 2007, o relato de que 09 pessoas teriam consumido tapiocas, no município de Sobral-CE e apresentado sinais e sintomas sugestivos de intoxicação. Essas pessoas compareceram aos serviços de saúde, foram medicadas, mas não houve registro de internações.

4. O fabricante das tapiocas, em referência, produzidas em uma residência do bairro das Pedrinhas e vendidas para a população de Pedrinhas e Tamarindo, informou à equipe de vigilância sanitária do município da respectiva regional que a fécula utilizada no dia 11 havia sido misturada com parte da fécula do lote, sob suspeita, utilizada no dia 12. Entretanto, as tapiocas consumidas no dia 11, por volta das 7:00h, não provocaram nenhuma reação; já aquelas consumidas a partir das 8:30h daquele dia, horário em que teria sido efetuada a mistura, provocaram os sinais e sintomas suspeitos.

5. As equipes de vigilância sanitária e epidemiológica registraram os depoimentos dos consumidores das tapiocas que disseram que as mesmas apresentavam odor forte, parecido com “cheiro de rato”.

6. As cinqüenta pessoas que consumiram as tapiocas, produzidas no dia 12, por meio da utilização do lote sob suspeita, foram atendidas na rede de assistência à saúde, sendo que 23 necessitaram ser internadas. A manifestação dos sinais e sintomas, em ambos os casos, variavam entre 3 e 20 minutos após o consumo, independente da quantidade ingerida, sendo que as reações relatadas no dia 12 mostraram-se mais intensas.

7. Os pacientes com suspeita de contaminação tiveram os primeiros atendimentos no Centro de Saúde da Família, do bairro Pedrinhas e no Centro de Saúde da Família do bairro Tamarindo. Os casos mais graves foram encaminhados para atendimento especializado nas unidades hospitalares: Santa Casa de Misericórdia de Sobral e Dr. Estevam. Os principais sinais e sintomas apresentados foram: náuseas, vômitos, diarréia, sudorese, tontura, calafrios, dor abdominal, tremores nas pernas e cefaléia.

8. A mobilização das equipes do município de Sobral e da regional ocorreu no dia 12 de fevereiro. Segundo relatório encaminhado pela Vigilância Sanitária do Estado do Ceará à Agência Nacional de Vigilância Sanitária- Anvisa, foram adotadas as seguintes medidas:“acionamento imediato das Vigilâncias Epidemiológica e Sanitária do município; encaminhamentos para o hospital dos casos suspeitos identificados pelas equipes de Saúde da Família dos bairros de ocorrência; investigação dos casos nos hospitais; investigação da possível fonte de contaminação; acionamento da equipe de suporte clínico através da Central de Controle e Avaliação de Sobral – médicos, enfermeiros e farmacêuticos; esclarecimento para a população sobre o evento; monitoramento da evolução dos casos; identificação do fornecedor e manipulador do produto com a inspeção sanitária das condições higênico-sanitárias destes locais e para identificação do possível uso de produtos para desinfestação; apreensão e recolhimento das tapiocas nos pontos de manipulação e venda; apreensão e recolhimento dos sacos restantes de fécula na manipulação, envio de amostras dos produtos apreendidos para análise laboratorial - toxicológico no Instituto Médico Legal e bacteriológico no Laboratório Central de Saúde Pública-LACEN; envio de amostras de conteúdo gástrico para exame toxicológico no Instituto Médico Legal-IML; recolhimento de pacotes de fécula lacrados em poder do fornecedor; interdição da fécula de mandioca da marca Juriti, no comércio local, como medida cautelar e solicitado laudo técnico de análise da Empresa Juriti, referente ao Lote 587”.

9. Por meio do Ofício nº 143/07– GICRA/GGALI/ANVISA, de 21/02/07, a Gerência-Geral de Alimentos da Anvisa solicitou à Divisão de Vigilância Sanitária do Estado do Paraná que adotasse as providências cabíveis em relação ao fabricante da fécula de mandioca, utilizada na fabricação das tapiocas, haja vista que o estabelecimento fabril localiza-se no Estado do Paraná. Segundo informado por essa vigilância, não foram encontradas irregularidades na inspeção sanitária realizada na empresa fabricante.

10. As amostras das féculas de mandioca e das tapiocas, objetos do surto, foram encaminhadas por meio do LACEN/CE para o LACEN/PA, para análise toxicológica dos produtos referentes aos compostos químicos: carbamato, organofosforados e cianeto.

11. O LACEN/PR forneceu os resultados definitivos das análises laboratoriais realizadas nas féculas e nas tapiocas, os quais indicaram que na amostra de fécula nº 1 foi encontrado o ingrediente ativo metomil, que pertence ao grupo químico carbamato, cujo resultado foi menor que 1,0 mg/kg. Na tapioca preparada com a fécula nº 1, também foi encontrado metomil, sendo o resultado 900 mg/kg. Na fécula nº 2, não foi detectado carbamato, porém na tapioca preparada com a fécula nº 2, encontrou-se 745 mg/kg. Os resultados microbiológicos não indicaram a presença de microorganismos patogênicos.

12. A Gerência-Geral de Toxicologia da Anvisa informou que: “o ingrediente ativo Metomil, não está autorizado para ser utilizado na cultura da mandioca, portanto, do ponto de vista legal, não podem ser encontrados resíduos, do ativo em questão, nos subprodutos da mandioca. O fato de terem sido detectados níveis de resíduos mais elevados na tapioca do que na fécula, leva a crer que a contaminação deu-se durante o preparo da mesma. A fécula nº 1 apresentou baixo nível de contaminação, provavelmente devido ao contato de material contaminado com Metomil, com o recipiente onde estava armazenada”.

13. Do resultado da investigação do surto concluiu-se que do total de 57 casos, 06 foram considerados suspeitos, 01 descartado e 50 confirmados, tendo sido adotadas as medidas necessárias para suporte aos pacientes intoxicados, sem prejuízo dos procedimentos legais cabíveis. Para elucidação do evento, foi necessária a ação conjunta das vigilâncias epidemiológica e sanitária.

14. Dentre as medidas de caráter preventivo, devem ser adotadas: orientação às tapioqueiras quanto aos procedimentos higiênico-sanitários a serem utilizados na preparação das tapiocas, capacitação dos cerealistas da região em Boas Práticas de Armazenamento, controle sanitário do comércio de produtos químicos e instrução à população usuária sobre os cuidados a serem observados na compra de tapioca, pois a aquisição para o consumo de alimentos inadequados pode provocar danos à saúde.

Referências Bibliográficas

INSTITUTO NACIONAL DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL em http://www.inpi.gov.br/ultimas_noticias/clipping/Ano2005/abril2005/clipping_06_04_05.htm

MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. CENTRO DE INFORMAÇÕES ESTRATÉGICAS DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE- CIEVS. Lista de Verificação de Surtos e Emergências em Saúde Pública. Publicação em 26/02/2007.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Departamento de Vigilância Epidemiológica.Coordenação- Geral de Doenças Transmissíveis. Gerência Técnica de Doenças Emergentes e Reemergentes. Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS – EPISUS. Intoxicação Exógena após Ingestão de Tapiocas.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE. DEPARTAMENTO DE ATENÇÃO BÁSICA. COORDENAÇÃO GERAL DA POLÍTICA DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO. Dez Passos para a Promoção da Alimentação Saudável nas Escolas.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SOBRAL. SECRETARIA DA SAÚDE E AÇÃO SOCIAL. 11ª Célula Regional de Sáude de Sobral. Relatório de Investigação de Surto de Intoxicação após Ingestão de Tapioca de Fécula de Mandioca no Município de Sobral-Ceará.

TABELA DE COMPOSIÇÃO QUÍMICA DOS ALIMENTOS. Guilherme Franco, 324 páginas, Ed. Atheneu, 2001.


Fonte: Anvisa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Ingredientes e suas funções

Características e funções dos ingredientes Os principais ingredientes em panificação dividem-se em dois grandes grupos: essenciais (farinha de trigo, água, fermento biológico e sal) e não essenciais (açúcar, gordura, leite, enzimas e outros). Destaque apenas para os essenciais: · Farinha O teor e a qualidade das proteínas formadoras de glúten da farinha de trigo são os principais fatores responsáveis pelo seu potencial de panificação, não obstante o amido, lipídeos e componentes aquossolúveis da farinha serem também necessários para a produção de pão com volume, textura e frescor adequados. Durante o processo de mistura, as proteínas insolúveis (gliadinas e gluteninas) da farinha de trigo hidratam-se, formando o glúten que após o tempo ótimo de mistura é capaz de reter os gases produzidos pelas leveduras, resultando desta forma um produto fermentado de baixa densidade. As gliadinas são as principais respons...

FORMULAÇÃO BÁSICA DE PÃO FRANCÊS

PARA ESTA FORMULAÇÃO UTILIZA-SE A METODOLOGIA DE PORCENTEGEM ( BAKER PERCENTAGE ) No método de porcentagem , a farinha é representada como 100 %, e os demais ingredientes como uma pocentagem da farinha. Exemplo: se eu vou utilizar 5 kg de farinha de trigo para elaborar um pão, estes 5 kg de farinha representarão 100%; e 3 kg de água gelada 60%, e assim sucessivamente. INGREDIENTES FARINHA................... (100 %) ÁGUA GELADA............... ( 60 %) SAL....................... ( 2 %) AÇÚCAR.................... ( 1 %) MARGARINA................. (2,5 %) CONDICIONADOR DE FARINHA.. ( 1 %) BANHA/GORDURA VEGETAL..... ( 1 %) EMULSIFICANTE (Opcional).. (0,1 %) FERMENTO BIOLÓGICO SECO... ( 1 %) TEMPO DE FERMENTAÇÃO Quantidade de Fermento Biol. Seco 1 % = 3 HORAS DE FERMENTAÇÃO 0,5 % = 6 HORAS DE FERMENTAÇÃO 0,25 % = 9 HORAS DE FERMENTAÇÃO TEMPERATURA DO FORNO 200 a 210º C c/vapor Processamento: 1 – Separar e pesar os ingredientes da formulação; 2 - Enviar os...

Etapas de Processamento do Pão

MISTURA ¯ FERMENTAÇÃO PRINCIPAL ¯ DIVISÃO ¯ BOLEAMENTO ¯ FERMENTAÇÃO SECUNDÁRIA ¯ MOLDAGEM ¯ FERMENTAÇÃO FINAL ¯ COZIMENTO ¯ RESFRIAMENTO ¯ CORTE EM FATIAS E EMBALAGEM Mistura: homogeneizar os ingredientes na etapa inicial, aerar e assegurar um trabalho mecânico sobre a massa, iniciando o desenvolvimento do glúten formado pela hidratação das proteínas da farinha até a obtenção de uma massa com propriedades viscoelásticas adequadas. A produção de massas à temperatura de 26-28ºC, ao final da etapa de mistura, é adequada, pois inibe a fermentação e, conseqüentemente, a produção excessiva de gases, sendo a temperatura da massa durante a mistura controlada pela temperatura da água. Fermentação Principal: é uma fermentação alcoólica e anaeróbica produzida pela ação do fermento biológico (levedura) sobre os açúcares presentes na massa. Há a produção de gás carbônico e modificações físico-químicas, as quais interferem nas propriedades plásticas da massa, participando da formação do sabor e...